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Ouçam, Ouçam,

O vento mudou e ela não voltou
as aves partiram, as folhas caíram
Ela quis viver e o mundo correr
prometeu voltar se o vento mudar

E o vento mudou e ela não voltou
sei que ela mentiu, p´ra sempre fugiu
Vento, por favor, traz-me o seu amor
vê que eu vou morrer se não mais a ter

Nuvens tenham dó que eu estou tão só
batam-lhe à janela, chorem sobre ela

E as nuvens juraram e quando voltaram
soube que mentira, p´ra sempre fugira
Nuvens por favor cubram minha dor
já que eu vou morrer se não mais a ter

Ouçam, Ouçam, Ouçam, Ouçam, Ouçam

O livro Discurso e Publicidade (EdUFF, 2008, 206p., R$30,00) apresenta a propaganda sob uma perspectiva ainda pouco abordada no Brasil. Para além da produção e da criatividade, Rosane da Conceição Pereira propõe a reflexão e o questionamento do setor, analisando-o como qualquer outro meio de comunicação. Na obra, a autora busca respostas para a relação do brasileiro com a publicidade desde seu surgimento no país e mostra como ela nos representa através do nosso próprio olhar e, ainda, o olhar do estrangeiro sobre nossa cultura. Nessa entrevista, Rosane conta como surgiu a ideia da análise, que representa uma inovação nas relações entre comunicação e linguística.

EdUFF: Como surgiu a ideia dessa pesquisa? Qual era o seu objetivo?

Rosane Pereira: No estudo da publicidade, a história marca o começo da propaganda no Brasil com a vinda da família real e da Imprensa para o país, em 1808. Mas há também uma história paralela, porque já se vendiam coisas no Brasil antes, pela propaganda boca a boca. Na história oficial, a publicidade surgiu com os anúncios classificados e, praticamente, sem imagens. Num segundo momento, apareceu a profissionalização e, num terceiro, o investimento em tecnologia. Isso é o tradicional na história da comunicação. Na pesquisa, eu proponho outras três abordagens: 1) O olhar do brasileiro sobre si mesmo – quando utilizo as propagandas premiadas como exemplo; 2) O olhar do outro, do estrangeiro, sobre o brasileiro – um olhar oblíquo; e 3) O olhar do brasileiro sobre o estrangeiro – no qual os publicitários tentam simular o olhar do estrangeiro sobre a cultura brasileira.

EdUFF: Como se dá o olhar do estrangeiro sobre o brasileiro?

Rosane: Na verdade, o publicitário brasileiro repete o que o outro estrangeiro espera, para que seu trabalho seja visto lá fora. Se ele começar a se colocar como alguém semelhante ao europeu, não haverá esse distanciamento e, talvez, o interesse do estrangeiro pelo trabalho dele.

EdUFF: Em que consiste o estudo da análise do discurso, no livro?

Rosane: Existem algumas teorias de análises do discurso. A que eu utilizei foi a de Michel Pêcheux, que leva em conta a psicanálise, a linguística e o marxismo, considerando não só a língua, mas também o sujeito e a história. A teoria de Pêcheux parte da concretude da linguagem como uma materialidade subjetiva e histórica e, nesse sentido, podemos ter a posição de estranhamento para nós mesmos, ou seja, pensamos, falamos e agimos como se controlássemos sempre esses domínios. Por exemplo, se questionarmos um publicitário por que ele está fazendo isso ou aquilo, é bem possível que ele responda: “Nunca parei para pensar nisso. Eu faço desse modo porque os meus colegas fazem assim”. Ele diz isso porque é um sujeito dividido (afetado) por gestos, atos e chistes de linguagem, os quais irrompem na língua sem que ele seja senhor do seu dizer, ou seja, porque tem a ilusão de ser a fonte dos sentidos naturalizados ideologicamente e dominar (saber) o que diz, quando de fato está submetido à opacidade e incompletude de toda língua. Ao “reproduzir” a maneira de nos dizer e mostrar na propaganda nacional, circulando nos festivais internacionais de premiação publicitária da criatividade, o publicitário brasileiro põe em jogo o que imagina que o estrangeiro pensa sobre o Brasil, mesmo que algumas ideias não sejam ponto pacífico para nós (ritmos, tipos, valores etc.).

EdUFF: Você acredita que a publicidade tenta manipular as pessoas?

Rosane: Isso diz respeito à ideologia e à manipulação, que já é outro questionamento. Como a análise do discurso trabalha com materialismo histórico, a gente destrói aquela ideologia de ocultar algumas ideias e alguns sentidos. Outra vertente diz que ideologia é naturalização dos sentidos, que aqueles sentidos foram naturalizados por uma imposição qualquer e cabe a quem vai desmaterializá-los (o público, o pesquisador, o aluno, o professor etc.) se questionar: “Será que esse é o único sentido possível sobre o que foi dito ou mostrado, dadas as condições materiais de produção (enunciação e circunstâncias sociais, históricas e ideológicas) desse discurso?”, em vez de “Será que essa é a única verdade?”

EdUFF: Existem, realmente, mensagens subliminares nas campanhas publicitárias?

Rosane
: Existe muito estudo nessa área da propaganda subliminar. No merchandising – que é aquela apresentação durante uma programação, por exemplo, num programa de auditório –mostra-se claramente quando se faz uma propaganda dentro da programação. Mas, se você assiste a um filme e aparece o nome de determinada marca de produto ou quando o ator a está usando, isso pode passar inconscientemente pelo espectador. Tanto que, passeando no shopping, há quem veja uma roupa que lhe foi apresentada dessa forma e acaba comprando. Os publicitários nem sempre pensam: “vamos fazer uma peça subliminar”! Então, o que é feito, do ponto de vista ético, são pequenas inserções de anúncios nas novelas etc.

EdUFF: Qual é, então, o grau de manipulação da propaganda?

Rosane: A pretendida manipulação da propaganda como “violação psicológica” em pesquisas de regimes totalitaristas durante a Segunda Guerra Mundial e apresentada em Propaganda: teoria, técnica e prática (Armando Sant’Anna, Ed. Pioneira Thomson Learning, 2002, p. 54) é uma ilusão, pois o sujeito, mesmo dividido pelo inconsciente e interpelado pela ideologia dominante da forma histórica do capitalismo, é livre para dizer o que diz de uma maneira e não de outras. Somos “livres” para consumir sentidos existentes (optamos por determinações de mercado com as quais nos identificamos e contra identificamos) e somos livres para nos marcarmos (como sujeitos) na ou pela língua. Podemos construir deslizamentos dos sentidos pelos quais nos “desidentificamos” ao status quo, segundo Pêcheux. Não creio que se possa medir o alcance da mensagem subliminar nem mensurá-la em uma tabela de custos para inserções de anúncios publicitários.

EdUFF: A questão da alteridade influencia o indivíduo na recepção da propaganda?

Rosane: Sim. É a visão do Outro que nos constitui. No terceiro momento abordado no livro, ou seja, o olhar do estrangeiro sobre o brasileiro, trato dessa questão. No carnaval, a gente brinca muito com essa questão através das fantasias, no sentido de mostrar as virtudes que o país tem em termos de religião e culturas diferentes e da estilização de cores e formas, pela qual o outro também vai nos reconhecer. Assim, inconsciente, também somos conduzidos por esse caminho.

EdUFF: Poderia exemplificar?

Rosane: De acordo com Eni Orlandi (pesquisadora da teoria do discurso de Pêcheux no Brasil) em Interpretação: autoria, leitura e efeitos do trabalho simbólico (Petrópolis, Ed. Vozes, 1996, p. 74), o Outro remete ao domínio simbólico do sujeito falado antes de nascer, atravessando todo e qualquer discurso, anterior e não localizável em qualquer indivíduo, o outro social. O Outro simbólico da linguagem existente sobre o que seria o Brasil (paraíso terreno como uma selva com mulheres sensuais; paraíso fiscal para onde se pode fugir incólume; país do futebol, do café e da cerveja; metonímia de Rio de Janeiro, de bossa-nova e rumba em vez de outros ritmos etc.) nos constitui para o outro social, ou seja, o estrangeiro que nos reconhece (nos vê) assim e nós mesmos. Logo, podemos nos contra identificar com a visão do estrangeiro em alguns sentidos (selva, paraíso fiscal ou “levar vantagem em tudo”, rumba etc.), nos identificar (paraíso terreno, mulheres sensuais, futebol etc.) e nos desidentificar fazendo deslizar os sentidos na propaganda. O Brasil superou sua crise econômica e possui grandes escritores, cientistas, músicos, artistas plásticos e pessoas “comuns” que se destacam por sua honestidade e ações sociais (“gente que faz”, “sou brasileiro e não desisto nunca” etc.).

EdUFF: Como é a relação, desde o início, entre o jornalismo e a publicidade?

Rosane: Essa é uma questão técnica, pois inclui os três tipos de discursos da publicidade, que a gente entende como os discursos como efeitos de sentido. O primeiro discurso é aquele da propaganda de boca a boca; o segundo discurso é o da propaganda oficial com a imprensa; e o terceiro discurso é o da propaganda atrelada à tecnologia. No início, a publicidade estava muito subjugada à imprensa, inclusive, existiam apenas os anúncios, com textos escritos nas redações dos jornais, relativos a pessoas oferecendo coisas, cursos, trabalhos ou à procura do escravo fujão. Tudo mudou com o início da xilografia e das gravuras, quando a imagem começou a ganhar maior destaque. Agora, a propaganda já dá forma ao jornal, com design arrojado e interagindo com a matéria.

EdUFF: Para terminar, que característica inovadora Discurso e Publicidade traz para o público?

Rosane: Em publicidade é difícil encontrar teóricos que falem além da história da propaganda. Há muitos livros sobre a própria técnica ou a propaganda em si, como Tudo que você queria saber sobre propaganda e ninguém teve paciência para explicar (Sergio Roberto Dias, Julio Ribeiro e Vera Aldrighi, 434p., Ed. Atlas). Claro, há, ainda, publicações que possuem até um pouquinho da história da propaganda e de psicologia da comunicação, como Criatividade em Propaganda (Roberto Menna Barreto, Ed. Summus), mas nenhuma sob o ponto de vista crítico da semântica discursiva. Acredito que a análise do discurso, adotada em meu livro, seja uma teoria mais condizente para os questionamentos não reducionistas sobre a publicidade.

Fonte: http://200.20.1.15/eduff/index.php?option=com_content&view=article&id=17:novas-perspectivas-para-a-publicidade&catid=3:entrevistas&Itemid=6

A riqueza da nossa língua, da sua expressão musical e visual, dos diversos povos de língua portuguesa, levam-me a acreditar ser necessário a criação de um festival próprio que possa ser uma referência internacional e que possa merecer ser transmitido em horário nobre… Para quando esse desiderato?CPLP

Cerca de 4500 quilómetros de estradas vão ser reparadas ao longo de 2013. O projeto está a ser concretizado ao abrigo do programa de conservação e manutenção de estradas do Instituto Nacional de Estradas de Angola (INEA), informou o diretor-geral da instituição.

À margem do I Conselho Consultivo do Ministério da Construção, realizado recentemente na cidade do Uíge, o diretor-geral Molares D’Abril afirmou que o programa prevê a reparação dos buracos, limpeza de valetas, bermas, desmatação, recomposição da sinalização, implantação de marcos quilométricos e melhoria da segurança rodoviária, entre outros.

“As metas estabelecidas para 2012 foram cumpridas, tendo lugar este ano a intervenção em cerca de 4500 quilómetros, uma vez que nem todas as empreitadas de conservação correram da forma como pretendíamos”, sublinhou D’Abril, citado pela agência noticiosa angolana Angop e pela Cargo News. Molares D’Abril adiantou que o INEA pretende concluir até ao final do ano a colocação de uma camada de asfalto em 12 mil quilómetros de estradas.

Fonte:

Notícia publicada na edição de 09/04/2013 do Jornal Cruzeiro do Sul, na página 006 do caderno Turismo – o conteúdo da edição impressa na internet é atualizado diariamente após as 12h.

Que o brasileiro está viajando mais, é fato: graças a transformações políticas e sócio-econômicas das últimas décadas, estamos inundando o Brasil e já formamos uma boa parte da demanda turística de países europeus, dos EUA e da América do Sul. Pouco a pouco, vamos chegando ao Oriente Médio e Japão e China são destinos cada vezes mais recorrentes na lista de desejos e necessidades dos viajantes brasileiros. Mas, quando nos referimos ao Sudeste Asiático, provavelmente há uma noção muito vaga do significado geográfico e cultural desta área do globo. Talvez, recordássemos de alguma desgraça recente relacionada aos tsunamis ou uma menção à exótica Bali, destino descolado de surfistas ou de viajantes excêntricos e endinheirados. Sem saber o nome, talvez também lembrássemos das ruínas de Angkor Wat, no Camboja, e, claro, a Guerra do Vietnã ainda nos remente, através dos belicosos filmes norte-americanos, às densas florestas do país.

Na passagem entre a Ásia continental e a extremo oriente, Tailândia, Malásia, Indonésia, Cingapura, Camboja, Vietnã e Laos poderão vir a ser, num futuro muito próximo, uma das fronteiras do turista brasileiro, que, agora, começa a alçar (literal e poeticamente) voos mais longos. Com a abertura de rotas do Brasil para cidades do Oriente Médio e Turquia, o acesso ao quadrante do globo de onde sai o Sol tem ficado cada vez mais prático e barato. O que antes poderia significar uma viagem inalcançável, hoje tem começado a aparecer nos catálogos de agências de viagens.

É possível encontrar passagens por menos de US$ 2.000 para China e países do Sudeste Asiático. Esta soma ainda pode significar o dobro de uma passagem para Europa ou Estados Unidos, porém, os custos naqueles países costumam ser bastante menores (com exceção de Cingapura!): na badalada Bali, é possível encontrar hoteis de categoria intermediária por US$ 30 e, em grandes cidades, hotéis de quatro estrelas podem custar US$ 80 para um casal. O sistema de transporte é barato e cruzar a cidade de táxi não sairia mais do que US$ 15. Assim, uma viagem de 10 ou 15 dias na Indonésia pode custar o mesmo que uma temporada na Europa. Não se trata de buscar uma substituição de destinos (afinal, cada lugar tem sua magia e particularidade), senão acreditar que, hoje em dia, o mundo está muito mais acessível ao consumidor brasileiro. Basta vontade e informação!

Diversidade que não assusta

Apesar de distintos – e muito diferentes em vários aspectos, registre-se! -, a Indonésia e a Malásia são países que comungam de alguns traços comuns, dentre eles a predominância do Islamismo e línguas praticamente idênticas (o bahasa indonesia e o bahasa melayu). Ambos foram colônias europeias até há algumas décadas e, atualmente, despontam como importantes players na economia regional e global e no cenário geopolítico. Os dois países somam cerca de 270 milhões de habitantes, de maioria muçulmana, além de uma expressão menor e localizada de hinduísmo, budismo e catolicismo, e representam um importante mercado consumidor para marcas e empresas globais (já que, por lá, a emergência das “novas classes médias” é, como no Brasil, um fenômeno em curso).

A região recebeu influências muçulmanas ainda no século XIV, originalmente vindo da Índia através da Ilha de Sumatra (a maior do arquipélago indonésio). Tendo submergido ao colonialismo europeu por quase cinco séculos (Malásia e Indonésia foram, respectivamente, colônias inglesa e holandesa até meados do século XX), o islamismo persistiu e se transformou, resultando em expressões culturais diferentes do que o senso comum costuma conceber. A imagem que o Ocidente está acostumado a assimilar infelizmente é a de muçulmanos fundamentalistas, não raro confundido com terroristas dispostos a matar e a morrer numa “guerra santa” (a Jihad). Assim, uma leitura superficial, sendo esta uma região de tamanha expressão muçulmana, poderia dar arrepios aos menos informados.

Questões políticas à parte, o Islã na Ásia se apresenta por cores muito particulares, ainda que os princípios da religião se conservem. As vestimentas das mulheres inclui, como reza o Alcorão, a cobertura dos braços, da cabeça, dos ombros e das pernas, contudo, os véus das mulheres indonésias e malaias costumam ser coloridos, estampados ou floridos e também é bastante comum o uso de calças jeans e tênis, que ficam à mostra.

Mas, se um desavisado acha que vai ver um islamismo descaracterizado, o engano se desfaz quando ouve uma das cinco chamadas diárias às orações, que emanam, rigorosamente nos mesmos horários, das incontáveis mesquitas espalhadas pelas cidades, desde as maiores metrópoles até as zonas rurais. O Adhan é feito é árabe (assim como a leitura de trechos do livro sagrado nas mesquitas e nas casas!) e ecoa por alto-falantes normalmente potentes. Mesmo os que não seguem a religião, não podem deixar de se arrepiar pela intensidade do chamado, que preenche os interstícios da cidade de maneira repentina, mas também efêmera. As mesquitas quase sempre estão abertas também ao público leigo, dentro de alguns critérios, como deixar seus sapatos à entrada e, para as mulheres, cobrir cabeças, pernas e braços. Nas mesquitas maiores, é muito comum um sistema de recepção ao visitante não-muçulmano, com folhetos em várias línguas que explicam aspectos da religião e, em alguns casos, um serviço de atendimento ao visitante, que conduz pequenos grupos pela história e elementos da religião.

Assim é, por exemplo, na Mesquita Sultão Salahuddin Abdul Aziz, em Shah Alam, cidade planejada a 25 quilômetros de Kuala Lumpur (capital da Malásia). Construída pelo Estado – já que na Malásia opera, de maneira moderada, a Sharia, a chamada Lei Islâmica na organização do Estado -, a mesquita ostenta quatro minaretes (torres) de 142 metros e amplos espaços de orações para até 24 mil fiéis, sob uma enorme cúpula azul (motivo pelo qual também é conhecida como Mesquita Azul – não confundir com a Mesquita Azul de Istambul!). No islamismo, não existe um sacerdote, como noutras religiões, mas o Iman é o responsável por conduzir as orações, seja na escala coletiva, ou mesmo no âmbito de uma família.

No que diz respeito à arquitetura, existem elementos que são comuns, como o posicionamento em direção a Meca (a cidade sagrada dos muçulmanos, na Arábia Saudita), espaços para higiene pessoal, com pias e torneiras, separadas por gênero (todo muçulmano deve se lavar antes das orações), um grande salão central, normalmente revestido por carpete (já que, para as orações, deve-se estar descalço) e ausência absoluta de imagens (para os muçulmanos, Alah não tem forma).

A arte e a arquitetura islâmicas não se restringem às mesquitas. No Museu de Arte Islâmica, em Kuala Lumpur, pode-se conhecer a história do islamismo no mundo e no Sudeste Asiático, que inclui, por exemplo, uma coleção de Alcorões, tapeçarias e cerâmicas, maquetes das principais mesquitas do mundo islâmico, etc. Mesmo o ícone da capital – e um dos marcos da arquitetura mundial – está marcado pelos princípios islâmicos: inauguradas em 1998, as duas torres de concreto, aço e vidro da estatal malaia do petróleo, Petronas Twin Towers, são formadas por sobreposições geométricas poligonais em cada um dos 88 andares dos edifícios. E, como não podia deixar de ser numa metrópole de influência internacional, os primeiros andares abrigam shopping centers de alto padrão, com filiais de marcas globais.

Tradição e inovação se somam na paisagem urbana, formando um mosaico de imagens que, ao olhar ocidental, inspira tanto identificação (sistemas de transporte, comércio, tumultos dos grandes centros), quanto estranhamento (minaretes das mesquitas, aromas e cores diferentes, hábitos alimentares, etc). Esta realidade urbana, apesar da distância cultural, guarda alguma semelhança com as grandes cidades brasileiras, em que a palavra de ordem é contraste.

Malaca: quando os portugueses descobrem a Ásia

Quando estudamos o Império Português, normalmente mencionamos as possessões que, de alguma maneira, guardam um vínculo mais forte com a lusofonia – países que, atualmente, formam a CPLP (Comunidade dos Países de Língua Portuguesa). Por vezes, Macau e Goa são lembradas, ainda que, tendo um histórico português não muito distante, pouco guardem da língua de Camões. Em Macau, quase nenhum chinês fala português, ainda que as ruas mantenham nomes como Rua da Erva e o pastel de nata seja bastante presente nos mercados de rua da cidade!

Contudo, é raro que se faça menção a Malaca, uma pequena cidade na costa oeste da atual Malásia, virada para o estreito que divisa a Indonésia. A historiografia oficial diz que, para estabelecerem-se no atual Timor Leste, em 1512, os portugueses teriam partido de sua base já implantada em Malaca, o que dá a ideia da precocidade da presença portuguesa na Ásia. E era uma área altamente estratégia, pois controlar o acesso a este canal, era aumentar a segurança das viagens às tão almejadas “Índias Orientais”, fonte de valiosas especiarias (principalmente cravo das Molucas, noz-moscada de Banda e sândalo do Timor), que, pela mão dos portugueses, poderiam chegar à Europa sem a intermediação dos árabes e turcos do Oriente Médio.

Malaca – ou Melakka, em bahasa indonesia – ostenta o título de patrimônio da humanidade desde 2008, pelo conjunto urbano e histórico que mescla resquícios de vários colononizadores e, claro, traços de sua mistura. A cidade, a cerca de 200km ao Sul de Kuala Lumpur e facilmente acessada por uma grande auto-estrada, oferece atrativos para um dia de passeios bem cheio, que vão desde as ruínas da Catedral de São João, no alto de uma colina, até o que um dia foi o centro de comando dos holandeses (Stadthuys) e a Igreja Cristã, construída em meados do século XVII sobre a primeira igreja dos portugueses.

Ao visitar Malaca, um brasileiro não se sentirá plenamente em casa (afinal, as referências culturais asiáticas são dominantes atualmente), mas certamente algumas coisas parecerão familiares. Mas um pouco mais afastada do centro, uma visita à Vila Portuguesa pode ser muito curiosa, já que, mesmo com a expulsão dos portugueses pelos holandeses em 1641, os moradores mantêm algumas referências portuguesas (como rudimentos da língua, festas juninas ou o “intrudu”, origens do Carnaval moderno). Isso se explica porque as missões religiosas de Portugal, que circulavam pela região em direção à China e ao Japão desde o tempo da colonização (São Francisco Xavier esteve em Malaca por cinco vezes!), mantiveram contato com o local até os tempos atuais, mesmo após a saída dos portugueses.

A Indonésia é muito mais que Bali

Bali polariza boa parte dos visitantes internacionais à Indonésia. E não é para menos: são quilômetros de praias, diversidade de atrações (templos, vulcões, fauna e flora, gastronomia, etc), vida noturna agitada (e ajustada ao gosto ocidental, com filiais das principais franquias globais) e uma importante “mãozinha” do filme Comer, rezar e amar, que faz hordas de turistas buscarem experiências propagadas pelo cinema. Somem-se as frequentes ligações aéres diretas com os principais centros emissores europeus e australianos e o fato deste paraíso hindu num país de maioria muçulmana (não sem um grau de hedonismo) ter caído nas graças de russos e chineses – o novo e abonado mercado emergente de turistas internacionais.

Mas a Indonésia é muito mais do que a ilha de Bali: no total, o arquipélago é formado por cerca de 18 mil ilhas – algumas até como um histórico em comum com o Brasil, como a Ilha de Flores, que um dia foi povoada pelos portugueses.

A Ilha de Java, a segunda maior e mais populosa, abriga a capital do país, Jacarta (que foi o centro de comando holandês, daí seu nome antigo “Batavia) e as duas outras principais cidades indonésias: Surabaya e Jogjakarta.

Se para o brasileiro São Paulo e Rio de Janeiro podem ser consideradas cidades complicadas, uma visita a Jacarta, com seus 12 milhões de habitantes, vai mostrar que vivemos uma realidade suíça: a cidade praticamente não tem transporte público de massa (à exceção de uma linha de ônibus semelhante aos corredores de Curitiba), portanto, carros, motos e “bajaj” (que os tailandeses chamam de “tuc-tucs”) invadem qualquer espaço – ou seja, ao pedestre apenas as sobras do espaço urbano! Não por isso, contudo, Jacarta deixa de se exibir como grande centro urbano de categoria global: são shopping centers imensos e recheados de lojas de marcas renomadas (como Pacific Place, Mall of Indonesia, Plaza Indonesia, Grand Indonesia, etc), além de grandes complexos corporativos com ampla oferta de escritórios de padrão internacional. Claro, tal como no Brasil, a cidade está repleta de bairros favelizados e os poucos cursos d´água remanescentes estão poluídos. Ainda assim, seu pequeno centro velho (ou “kota lama”, na língua indonésia), conhecido como Batavia Antiga, conta um pouco da história do período sob administração holandesa, como no Museu Histórico (de museologia pobre, mas acervo interessante) e, no outro lado da praça, o Café Batavia, um ponto de encontro remanescente do tempo holandês, além do Museu Marítimo e a Torre Bahari, que permite uma vista geral da zona portuária da cidade (Sunda Kelapa).

A comida de rua é, sem dúvida, um dos atrativos da cidade, que vai desde o “bakso” (espécie de sopa com almôndegas e verduras) até o tofu (ou “tahu”), feito de várias formas. Venda de frutas (muitas delas bem parecidas com as brasileiras) e sucos também são comuns – ainda que, para alguns, isso inspire algum cuidado, por conta da duvidosa origem da água.

Jogjakarta, na costa sul da ilha, pode ser acessada por um serviço ferroviário antigo, porém frequente, ou por via aérea. Uma cidade bastante menor (cerca de 600 mil habitantes), mas de história importante, especialmente pela proximidade de relíquias datadas de antes da chegada dos muçulmanos, como o templo (“candi”) budista de Borobudur (50km a noroeste da cidade), e as ruínas do templo hindu de Prambanam (25km a leste da cidade), ambos remontando ao século IX. Os dois locais são reconhecidos como patrimônio da humanidade e podem ser visitados de maneira organizada dentro de parques arqueológicos. O nascer do sol em Borobudur é deslumbrante e também curioso: numa visita que faz lembrar o budismo, durante o alvorecer pode-se ouvir ao longe o chamado para orações das mesquitas! Além disso, no entorno, há ruínas de muitos outros pequenos templos, que podem ser percorridos e contemplados em passeios de bicicleta, cruzando-se campos de arroz e pequenas vilas produtoras de especiarias, artesanato, tecido, tofu, etc.

Então, posso ir?

Atrativos não faltam; o custo, apesar de ainda alto (por conta da distância), é competitivo com relação a outros destinos mais conhecidos. Apesar de serem países com baixos índices de criminalidade, convém lembrar que há cuidados essenciais, especialmente porque um estrangeiro normalmente não passa desapercebido. Alguns alertas:

* Mulheres devem também ter atenção, pelo fato de, mesmo sendo estrangeiras, seu comportamento poder ser enquadrado nos hábitos normalmente aplicados às mulheres muçulmanas (especialmente no que diz respeito a roupas e se estiverem desacompanhadas).

* A infra-estrutura dos países no geral ainda é bastante desorganizada, então, as viagens podem demorar mais do que o programado. Há trens regulares, mas com pouca frequência. Ônibus são mais comuns – mas nem sempre confortáveis. Por isso, é preciso alguma paciência! Como os táxis são baratos, não é má ideia recorrer a eles no final do dia…

* Dada a localização em uma faixa tropical e suas capitais serem metrópoles enormes, ambos os países costuma enfrentar problemas com enchentes. Por isso, é bom estar atento às orientações locais sobre cuidados neste assunto ou pesquisar sobre a melhor época antes de viajar.

* Por mais que a curiosidade motive muitos a provar a gastronomia local, metabolismos mais frágeis podem sentir o contraste de tempero e – é fato! – da falta de higiene (especialmente dos alimentos consumidos na rua).

Thiago Allis é docente da UFSCar-Sorocaba desde 2008, Bacharel em Turismo e doutor em Planejamento Urbano e Regional. Em 2012, morou no Timor Leste, como professor convidado da Universidade Nacional de Timor Leste (UNTL), quando visitou vários países do Sudeste Asiático.

Fonte: http://www.cruzeirodosul.inf.br/acessarmateria.jsf?id=465439

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