Baía – 4 de Maio de 1823
Logo após a independência, o imperador D. Pedro I tinha feito avançar as tropas brasileiras sobre a Baía e posto cerco

Salvador da Baía
à cidade. Ao mesmo tempo tinha-se esforçado por criar rapidamente uma marinha de guerra, elemento indispensável para assegurar a unidade de um país imenso em que a ligação entre as diversas partes era feita quase que exclusivamente por via marítima.
Por essa altura encontrava-se na América do Sul lorde Thomas Alexander Cochrane, ex-oficial superior da Royal Navy, que se notabilizara nas guerras da independência do Peru e do Chile organizando e comandando as respectivas armadas e infligindo algumas derrotas no mar aos Espanhóis. D.Pedro contratou-o para organizar e comandar a armada brasileira, concedendo-lhe o posto de almirante. Contratados por ele foram para o Rio de Janeiro vinte e oito oficiais e cerca de quinhentos marinheiros ingleses. Com eles e com os oficiais e marinheiros portugueses que haviam optado por continuar ao serviço de D. Pedro, Cochrane conseguiu guarnecer os poucos navios portugueses que estavam no Rio em estado de navegar e outros que foram adquiridos no estrangeiro. E em princípios de 1823 já tinha, prontos para entrar em acção, uma nau, três fragatas, duas corvetas e cinco brigues, além de outros navios menores, ou seja, uma força sensivelmente igual à que os Portugueses tinham na Baía.
A 3 de Abril Cochrane largou do Rio de Janeiro à testa de uma esquadra constituída por uma nau, uma fragata, duas corvetas e dois brigues com a missão de bloquear a Baía e assim impedir que a sua guarnição pudesse receber reforços ou abastecimentos idos de Lisboa. A 25 chegou àquela cidade, ficando a cruzar ao largo. A 29 juntou-se-lhe mais uma fragata.
Logo que teve conhecimento da presença da esquadra brasileira, Pereira de Campos fez-se ao mar com uma esquadra composta por uma nau, duas fragatas, uma charrua, uma escuna, cinco corvetas, um brigue e uma sumaca. Porém, durante a saída, a nau D. João VI encalhou, pelo que só a 30 a esquadra portuguesa conseguiu deixar a Baía. Nessa altura já a esquadra de Cochrane tinha desaparecido, só voltando a ser avistada, muito ao longe, ao entardecer de 3 de Maio.
Ao nascer do Sol do dia 4 as duas esquadras estavam novamente à vista uma da outra. A brasileira encontrava-se a cerca de 24 milhas a ESE da ponta de Santo António, a navegar com a proa sensivelmente a oeste; a portuguesa encontrar-se-ia aproximadamente a 12 milhas a SW daquela ponta, a navegar para sul. O vento era fraco a bonançoso de leste e o mar de pequena vaga.

Baía – 1823
Ao ser avistado o inimigo a esquadra portuguesa virou imediatamente por d’avante, por movimentos sucessivos, e dirigiu-se para norte, a rumo de colisão com ele, com os navios formados em duas colunas paralelas. A coluna de barlavento era composta pela nau D. João VI, de 74 peças, seguida pela fragata Constituição, de 50, pela escuna Príncipe Real, de 26, pela charrua Princesa Real, de 28, e pelas corvetas Calipso, de 22 peças, e Dez de Fevereiro, de 26; a coluna de sotavento era encabeçada pela fragata Pérola, de 44 peças, seguida pelas corvetas São Gualter, de 26, Regeneração, de 22, e Princesa Real, de 24. O brigue Audaz, de 18 peças, e a sumaca Conceição, de 6, haviam sido destacados para reconhecer o inimigo, sendo mandados regressar à formatura pelas sete horas da manhã. Em conjunto, a esquadra portuguesa totalizava 366 canhões.
A esquadra brasileira encontrava-se formada numa única coluna. À frente vinha a nau D. Pedro I, de 64 peças; atrás dela as fragatas Ipiranga, de 54, e Niteroí, de 42, e a corveta Maria da Glória, de 30; por fim, consideravelmente atrasados em relação a esta, a corveta Liberal, de 22 peças, e o brigue Real Pedro, de 16; a EB da coluna, pela alheta do navio-chefe, navegava o brigue Guarani, de 14 peças, com a missão de repetir os sinais daquele. Em conjunto, a esquadra brasileira dispunha de 242 canhões, ou seja, menos 124 que a esquadra portuguesa, o que representava indiscutivelmente uma diferença considerável.
Cerca das dez horas Pereira de Campos ordenou à coluna de sotavento que fizesse força de vela e se fosse colocar a vante da coluna de barlavento e no prolongamento dela. A ideia seria, possivelmente, depois de iniciado o combate, mandar virar por d’avante os navios da vanguarda e meter a esquadra inimiga entre dois fogos. No entanto, parece que, pelas onze e trinta, mudou de ideias. Tendo constatado que o grosso da esquadra brasileira era constituído por uma nau e duas fragatas e que para enfrentar o seu primeiro choque só dispunha de uma nau e uma fragata, ordenou à fragata Pérola para se deixar descair e entrar na coluna, talvez a ré da Constituição. Assim fez aquela, mas, tendo perdido seguimento, abateu muito para sotavento e não chegou a ocupar o lugar que lhe havia sido destinado antes de a batalha ter começado.
Pelas doze horas já as duas esquadras estavam relativamente próximas uma da outra, mas o vento era cada vez mais fraco, depois de ter rondado para ENE, pelo que a aproximação se fazia vagarosamente. Entretanto os navios brasileiros tinham içado o pavilhão verde e ouro por entre os vivas das guarnições.
Lentamente, muito lentamente, as duas longas colunas de navios continuavam a aproximar-se, tudo fazendo crer que ao chegar ao alcance de tiro Cochrane, como lhe competia por estar a barlavento, orçaria de modo a ficar com os seus navios dispostos segundo um alinhamento paralelo ao dos portugueses.
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1 – D.João VI (74)
2 – Constituição (50)
3 – Pérola (44)
4 – Príncipe Real (26)
5 – Princesa Real (28)
6 – Calipso (22)
7 – Dez de Fevereiro (26)
8 – São Gualter (26)
9 – Regeneração (22)
10 – Princesa Real (24)
11 – Audaz (18)
12 – Conceição (6)
13 – D.Pedro I (64)
14 – Ipiranga (54)
15 – Niteroi (42)
16 – Maria da Glória (30)
17 – Liberal (22)
18 – Real Pedro (16)
19 – Guarani (14) |
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| Aproximação das duas colunas |
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Cochrane corta a coluna portuguesa |
Mas não foi isso que aconteceu. Cochrane, como aliás a maior parte dos oficiais ingleses da sua geração, era um fervoroso discípulo da escola de Nelson, que, em vez da velha táctica do duelo de artilharia entre duas colunas, que raramente conduzia a resultados decisivos, preferia a táctica de cortar deliberadamente a coluna inimiga, embora à custa de um elevado risco, a fim de obter marcada superioridade no ponto de ruptura e assim ter a possibilidade de capturar um número significativo de navios inimigos.
Tendo notado que entre a escuna Príncipe Real e a charrua Princesa Real havia um intervalo considerável não hesitou em aproveitá-lo para cortar a coluna portuguesa nesse ponto e tentar aniquilar a sua rectaguarda antes que o centro e a vanguarda pudessem socorrê-la. E, cerca das quatro da tarde, tendo chegado à distância de tiro, em vez de orçar, como seria de esperar, arribou em cheio e passou com a D. Pedro I entre aqueles dois navios disparando furiosamente a sua artilharia e mosquetaria por ambos os bordos!
Respondeu a Princesa Real arribando um pouco, por forma a conservar a nau inimiga dentro do campo de tiro da sua bateria, enquanto o Príncipe Real continuava em frente, acompanhando o movimento da coluna em que se achava integrado. Minutos depois a fragata Ipiranga tomava posição pela alheta de EB da charrua, juntando a voz dos seus canhões à dos canhões da D. Pedro I. Nesta luta desigual de um fraco contra dois fortes o navio português sofreu graves avarias no aparelho e no costado e teve dois mortos e quinze feridos, alguns dos quais viriam a falecer pouco depois. Não obstante, ao ser intimado por Cochrane a render-se recusou-se a fazê-lo, continuando a responder animosamente ao fogo dos seus adversários.
A fragata Niteroi tomou à sua conta a corveta Calipso. Mas esta, não estando disposta a bater-se sozinha contra um navio muito mais forte, arribou e fez força de vela, afastando-se para sotavento. O mesmo fez a corveta Dez de Fevereiro quando se sentiu ameaçada pela aproximação da Maria da Glória.
Daí que a batalha se tenha resumido ao violento embora curto combate travado entre a charrua portuguesa Príncipe Real e os dois navios brasileiros que a atacaram, a nau D. Pedro I e a fragata Ipiranga.
Entretanto tinham surgido graves problemas no seio das guarnições dos navios de Cochrane. Os marinheiros da corveta Liberal e dos brigues Real Pedro e Guarani, todos eles portugueses, recusaram-se abertamente a entrar em acção, apesar dos incitamentos e das ameaças dos oficiais, declarando que «portugueses não se batem contra portugueses!». Nos outros navios, em que os marinheiros portugueses estavam misturados com ingleses não tomaram aqueles uma atitude tão frontal mas iam fazendo toda a resistência passiva que podiam. No mais aceso do combate, o fiel da artilharia, o escoteiro e um cabo da D. Pedro I fecharam à chave o paiol da pólvora e declararam peremptoriamente que dali não haveria de sair mais pólvora para atirar sobre portugueses! Dominados pela força, foram postos a ferros.
Surpreendido pela inesperada manobra de Cochrane, Pereira de Campos nada mais pôde fazer do que mandar virar em roda a sua vanguarda e o seu centro e ir em socorro da rectaguarda. Mas o almirante inglês não esperou por ele. Tendo perdido a confiança nas suas guarnições não estava disposto a envolver-se numa batalha em clara inferioridade numérica. Por isso, cortou a proa à Princesa Real, isto é, passou pela proa dela, e, depois de a ter mimoseado com mais uma salva, orçou e rumou a sul. Os restantes navios da esquadra brasileira acompanharam os movimentos do chefe.
Encontrando-se com a sua esquadra completamente desorganizada, Pereira de Campos só algumas horas mais tarde pôde iniciar a perseguição ao inimigo em retirada. Pouco depois caía a noite. Ao amanhecer do dia 5 de Maio a esquadra de Cochrane já não se avistava. A nossa conservou-se em cruzeiro ao largo da Baía até 21 de Maio sem que o inimigo voltasse a dar sinal de si. Nessa data recolheu ao porto para se reabastecer.
A propósito desta batalha, uma das últimas travadas pela Marinha Portuguesa, parece-nos que serão de realçar três pontos: em primeiro lugar, a audácia de Cochrane, que, apesar de dispor de uma esquadra mais fraca, não hesitou em atacar uma esquadra mais forte, e a habilidade táctica com que o fez; em segundo lugar, a valorosa resistência oposta pela charrua Princesa Real, que fez gorar os planos do inimigo; em terceiro lugar, o patriotismo dos marinheiros portugueses que guarneciam os navios brasileiros, que, apesar de terem optado por uma nova nacionalidade, não esqueceram a lealdade que deviam à sua antiga Pátria.
Saturnino Monteiro
em «Batalhas e Combates da Marinha Portuguesa» (Vol.VIII)